PROFESSORAS SINDICALISTAS EM VOLTA REDONDA: O REGISTRO DE TRAJETÓRIAS NO ENCALÇO DA INVISIBILIZAÇÃO FEMININA

 

 

 

Thais Martins1

Lia Faria2

 

No teatro da memória, as mulheres são uma leve sombra.

Michelle Perrot

 

A violência contra a mulher se concretiza em várias dimensões, desde opressões psicológicas, religiosas, institucionais até o limite das agressões sexuais e físicas que levam à morte dezenas de mulheres todos os dias. No escopo dessas formas de exercício da opressão de gênero, é fundamental destacar as mais sutis, como os silenciamentos.

 

A negação ao direito à memória, no que tange ao registro das vozes e papéis exercidos por mulheres da esfera pública e, mais fortemente ainda, por mulheres que transitaram anônimas ao longo de sua existência, também se constitui como violência política e institucional.

 

Perrot (2005) nos relata que no século 19, testemunhou-se um período em que o traço das mulheres era raramente retratado em documentos públicos, ou, quando assim se fazia, era abordado com base nos estereótipos mais grosseiros. Da mesma forma as memórias ‘privadas’, contidas nas cartas pessoais e nos diários íntimos, estavam relegadas ao universo mais secreto de si, quando não, eram destruídas por caracterizarem uma transgressão ao silêncio imposto pela sociedade patriarcal.

        

Ao estabelecer relações com a contemporaneidade, percebemos que o apagamento dos traços e vozes das mulheres, perpetrado historicamente ao longo do século 19, seja em que esfera da vida estivessem mais atuantes, ainda ressoa nas opções políticas implícitas nos critérios de organização e prioridade de arquivos públicos e no arcabouço de temáticas de pesquisas desenvolvidas no universo acadêmico.

        

Da mesma forma, Joan Scott, quando reconstitui historicamente o campo da história das mulheres, enuncia períodos em que as narrativas apresentavam-se inicialmente mais associadas às práticas políticas feministas, transitando para um momento em que ocorre a ampliação e aproximação própria do campo, que passa a documentar diversos aspectos da vida das mulheres, e evoluindo para a predominância da concepção de gênero. Ressalta, no entanto, que essa narrativa necessita de reflexão crítica para não recair numa compreensão simplista de sua perspectiva histórica e, embora discorra sob um enfoque mais centrado no contexto acadêmico norte americano, destaca que “a maior parte da história das mulheres tem buscado incluir as mulheres como objeto de estudo”, em contraposição a incorporação dominante do sujeito como um homem branco.

        

O apagamento dos traços das mulheres, analisado por Perrot, e a luta pela constituição do campo de pesquisa da história das mulheres, caracterizada por Scott, evidenciam tipos de violências simbólicas, políticas e/ou institucionais, que transcorreram ao longo dos séculos 19 e 20 e reverberam até os nossos dias.

 

Nesse sentido, o registro histórico sob a ótica das vozes não oficiais se faz tarefa premente, seja ela a história dos fatos públicos, a história das trajetórias pessoais ou a história de um campo de pesquisa específico, como a história das mulheres. E, quando se coloca em questão o registro da história, inevitavelmente emergem da consciência da historiadora e do historiador concepções subjacentes ao seu fazer. O que é história? Como caracterizar o tempo histórico? De onde parte o/a historiador/a? Que arquivos privilegiar? Quais os lugares de fala das mulheres investigadas? Como registrar histórias de vida compreendendo os limites da “ilusão biográfica”? Debate do qual não se pode abrir mão, para a garantia de uma produção coerente com a matriz teórico-metodológica pela qual se opta.

 

Onde há acontecimento humano, há história e cabe ao historiador saber interrogar as evidências, nos faz refletir Marc Bloch (2001) ao analisar o processo histórico e os homens. Os acontecimentos históricos e suas tramas, a atuação de mulheres, homens, educadores/as, trabalhadores/as, figuras públicas, ou sujeitos “invisíveis”, as relações que se estabelecem em variados espaços e tempos, as conseqüências da ação humana, constituem-se em matéria bruta de alto interesse para aqueles que se propõem a compreender o seu tempo histórico, bem como sua relação com outros períodos. Portanto, é a partir da problematização da ação dos homens no seu tempo, e não da leitura fria e descontextualizada de documentos oficiais considerados fontes inquestionáveis, que se analisam as questões investigadas na perspectiva histórica que nos traz Marc Bloch.

 

Toda análise histórica, portanto, está condicionada por interesses, pontos de vista, princípios que, conscientes ou não, permeiam a construção de um enredo, um trajeto de leitura. Assim, a escrita da história pelos que ocupam espaços de poder, seja em que esfera, instância ou dimensão for, omite vozes e fatos que seriam capazes de reescrever os ditos oficiais numa vertente radicalmente diferente. E aos que reivindicam a história como ciência técnica, neutra, para a qual se atribui a incumbência de narrar e/ou descrever, cronologicamente, acontecimentos e personalidades de uma circunscrição e época específica, cabe reconhecer-se numa perspectiva positivista do fazer histórico.

 

Nesse sentido, dialogando com Marx (1978), que afirma, “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem: não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”, compreende-se que considerar a ação humana é central, bem como os elementos do tempo histórico nas relações que se estabelecem entre eles, para uma leitura histórica, contextualizada e crítica da realidade.

 

Em se tratando da ideia de tempo histórico, conforme Le Goff (2015), organiza-se o tempo a partir da criação de critérios de periodização, o que “indica uma ação humana sobre o tempo e sublinha que seu recorte não é neutro”. Crises paradigmáticas, rupturas e continuidades, a própria necessidade de sistematizar o ensino da história motivam a escolha de critérios para organização do tempo e, conforme Le Goff, a menção ao termo “período histórico” será a referência para o trabalho que se coloca. Na medida em que se localiza o período histórico torna-se possível analisar, com maior profundidade e coerência, sua caracterização, compor os cenários em questão e interpretar as trajetórias de vida a que se propõe nosso projeto.  

 

A pesquisa em questão localiza-se no campo da História da Educação, cujo objeto de estudo é composto por professoras sindicalistas e suas memórias de educadoras militantes, onde o sindicato e a escola foram determinantes para sua formação. Mulheres, educadoras, militantes políticas e sindicais, que contribuíram decisivamente para a democratização dos espaços onde atuavam, desde o âmbito de suas relações pessoais até a gestão de escolas públicas e da cidade em que residiam. É imprescindível destacar que o recorte espacial da investigação encontra-se na cidade de Volta Redonda, interior do Estado do Rio de Janeiro, abrangendo o período histórico situado entre as décadas de 1970 e 1990.

 

Ao investigar a vida de mulheres, professoras, militantes políticas e sindicais e mães de família, observando-se pressupostos através dessa concepção do fazer histórico, coloca-se como imperativo pensar o contexto sociopolítico e econômico de seu tempo e sua atuação, mediante esse universo múltiplo de referências em relação permanente com as condições concretas a que são submetidas.

 

Deste modo, compreender, então, ao considerar o tempo histórico quanto à temática proposta, que um recorte temporal que abarque um período da história nacional, entre as décadas de 1970 e 1990, coloca em pauta para análise o final da ditadura civil-militar, o processo de redemocratização, experiências como os debates pró-constituinte pelo país, a reestruturação das instituições e relações a partir da nova Constituição Federal Brasileira de 1988, o surgimento de mecanismos de democratização das instâncias públicas, dentre outros fatos e aspectos essenciais para a contextualização necessária.

 

Contextualização essa que não se restringe a listar fatos, acontecimentos, personagens e suas ações, de forma estanque e isolada, mas avança no sentido de produzir reflexão sobre o que nos traz o recorte do tempo em questão, analisando as entrelinhas e costuras do cenário. Trata-se de relações e discursos que se evidenciam a partir da observação mais criteriosa e crítica dos fatos históricos e seus agentes.

 

Como parte da composição deste cenário, de onde emerge nosso objeto de pesquisa, cabe destacar um pouco sobre a história da cidade de Volta Redonda, que é conhecida por ter se formado a partir da construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), indústria produtora de aço, construída a partir da política varguista de industrialização do país no período de 1942 a 1946. Até então, Santo Antônio de Volta Redonda era um distrito da cidade de Barra Mansa e situava-se na região do Vale do Café que, embora em decadência como atividade econômica na região, ainda repercutia, através da herança de tempos escravagistas e conservadores, numa visão de sociedade.

 

Deste modo, simultaneamente à construção da Usina (CSN) deu-se, também, a construção da cidade, tendo como referência o modelo de vila operária das cidades industriais americanas, conforme previa o plano diretor do complexo siderúrgico elaborado, por encomenda, pela empresa norte-americana Arthur G. Mackee & Company.

 

É de fundamental importância também, considerar o processo de formação da classe operária e, por conseqüência, da população da cidade fortemente marcada pela presença de migrantes, na sua maioria oriundos da Zona da Mata do Estado de Minas Gerais, que vieram em busca de trabalho, ou muitas vezes eram recrutados nos abarrotados caminhões que partiam em busca de trabalhadores e suas famílias, no período de construção da usina. Ressalta-se que a CSN foi, até bem pouco tempo, reconhecida como a maior siderúrgica da América Latina e os anos de sua construção aglutinaram um ajuntamento de trabalhadores de proporções gigantes. Acompanhando esses trabalhadores, concentrados na construção civil, vieram as famílias, centenas de mulheres e crianças, como num ‘fenômeno de mobilização de massas’3 que foram se instalando nos casebres dos acampamentos provisórios levantados em meio a cafezais e plantações remanescentes da vocação econômica de um passado recente do vilarejo.
 

Sobre o período da construção da CSN, Bedê (2010) afirma

 

“Em Volta Redonda, a CSN combinou estratégias de persuasão para atrair e fixar a mão-de-obra operária, envolvendo mecanismos subjetivos de representação dos primeiros trabalhadores como “pioneiros”, “heróis das trincheiras” dos canteiros de obras, “soldados-operários” da pátria, configurando um projeto identificatório (Rummert, 2000) original que desde então o acompanha”.4 

 

Conforme evidenciam as pesquisas do professor Valdir Bedê (2010), a caracterização da mão-de-obra atuante na fase de construção da siderúrgica, não só era majoritariamente masculina, como se calcava em recursos atrativos centrados em estereótipos vinculados à figura masculina. Bem como após sua inauguração, em 1946, o operariado fabril também era composto predominantemente por homens e a empresa chegou a contar com até 23.000 trabalhadores. 

 

A partir dessa análise, cabe refletir que fizeram parte de todo esse processo centenas de mulheres que acompanharam suas famílias e garantiram as condições de sobrevivência para que todos esses trabalhadores cumprissem seu propósito e, em última instância, para que a indústria e a cidade se estruturassem.Assim como, também se faz pertinente observar de que forma os arquivos ou instituições locais abordaram, ou não,a preservação da memória de figuras femininas que perpassaram todo esse processo histórico. 

 

É nesse contexto que se formaram as mulheres de quem investigamos as trajetórias, com destaque para uma das lideranças que ainda se mantém em atividade. Consideramos, como cerne da pesquisa, sua atuação para a democratização da escola pública (no período de ditadura civil-militar no país, bem como no processo de redemocratização e pós-redemocratização) e para a organização dos movimentos associativos de classe na cidade, inclusive na fundação do atual SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação). Cabe destacar que, juntamente com esses aspectos de sua trajetória, também se apresenta como um viés estruturante da pesquisa: a análise de sua formação enquanto mulheres, frente às questões de gênero postas nesses espaços e tempos.

 

Alguns questionamentos centrais direcionam a exploração do nosso objeto de pesquisa: de que forma essas mulheres, cercadas por práticas de controle e censura institucionalizadas pela ditadura civil-militar, bem como por relações ainda fortemente marcadas por opressões de gênero, forjaram sua atuação democratizante nos espaços atribuídos à educação pública? Que elementos de reflexão essas trajetórias nos trazem para pensar também o tempo presente, no que se refere ao enfrentamento dos vestígios da ditadura civil-militar percebidos em práticas e políticas que se propõem a desmontar estruturas democráticas em construção no campo da educação?

 

Desta forma, torna-se estratégico, para dar a conhecer a contribuição dessas mulheres, apostar na investigação de sua participação em práticas relacionadas à democratização das gestões escolares e de diversas instâncias democratizantes na cidade (incluindo-se a eleição para o cargo de direção escolar de algumas das nossas investigadas, num contexto em que tal mecanismo não estava ainda institucionalizado), bem como de sua atuação mais orgânica na fundação e organização do movimento associativo de professores (posteriormente, de profissionais da educação), hoje concretizada na organização do SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação). Evidenciando, inclusive, como suas histórias de vida e militância se relacionam com a história operária da cidade, caracterizando-se fortemente o aspecto da formação sindical das mulheres investigadas. Chegando até a década de 1990, período de forte enfrentamento à retirada de direitos, conseqüência das políticas neoliberais, em que há necessidade de organização de lutas de resistência, dentro e fora das escolas, com grande engajamento das referidas professoras.

 

Ao analisar os percursos de vida ou trajetórias individuais, no âmbito da formação pessoal e profissional, perpassando as dimensões de gênero, da atuação profissional, política e sindical destas respectivas professoras, procuramos abrir espaço à essas vozes femininas que ainda não foram destacadas no itinerário histórico dessa cidade.

 

Nesse sentido, ao pesquisar as vidas de mulheres nos âmbitos diversos em que produziram e/ou produzem suas atuações, como no ambiente doméstico, a prática profissional na educação pública, a militância sindical e política em sindicatos, centrais e partidos, faz-se imprescindível, para além da caracterização do contexto histórico, uma leitura que integre a representação dessas figuras em todos esses ambientes e a partir de diferentes discursos, dos seus próprios e os daqueles/as com quem conviveram. 

 

O desenvolvimento do trabalho com nosso objeto de pesquisa é perpassado pela centralidade da questão de gênero, visto que, como já pontuado anteriormente, “a dificuldade da história das mulheres deve-se inicialmente ao apagamento de seus traços, tanto públicos quanto privados” (PERROT, 2005, p.29). A desigualdade de gênero, bem como as opressões específicas nas relações fortemente marcadas por visões predominantemente patriarcais e machistas, é chave de compreensão fundamental.

 

Ainda recorrendo às reflexões de Michelle Perrot (2005), em séculos de registro da história, o espaço destinado à memória das mulheres foi, quase sempre, o de uma “leve sombra”, como se lhes bastasse o papel de coadjuvantes das narrativas históricas. Algumas características como localização geográfica (mulheres rurais e urbanas), origem de classe social, acesso à cultura letrada e ao mundo da escrita, tornavam ainda mais desigual a preservação de qualquer forma de registro e aprofundavam o apagamento dos traços e a opacidade das memórias e das falas das mulheres no processo histórico.

 

Ao abordar as memórias das mulheres em enfoque no trabalho proposto, inevitavelmente, a questão das fontes de pesquisa se apresenta e os arquivos, pessoais e institucionais, passam a ser centrais para o traçado das trajetórias. Deste modo, assinalamos também a necessária análise histórica de que os arquivos públicos e institucionais calam as mulheres e que há um déficit documental nesse aspecto (Perrot, 2005), o que poderá ser verificado, considerando o período histórico definido e o possível acesso aos arquivos institucionais selecionados, como o arquivo da CSN, do Sindicato dos Metalúrgicos (predominantemente masculino), da Cúria Diocesana da região, do SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação) e das Secretarias de Educação Municipal e Estadual.

 

Entretanto, cabe ressaltar também o papel dos arquivos privados e pessoais, espaços de maior expressão das mulheres historicamente, considerando as características que demarcam diferenças e já foram destacadas, que possibilitam o acesso a uma quantidade de informações maior e mais próxima de um universo íntimo dessas mulheres. Sendo isso possível, visto que se trata de um grupamento de professoras e profissionais da educação que, comumente, possuem o hábito de manter acervos próprios e carregam, de certa forma, a herança de um ‘papel permitido’ às mulheres de outrora, de escribas da família em livros de anotações da casa, correspondências familiares, registros organizativos, dentre outros.    

 

Segundo Ângela de Castro Gomes, em recente palestra proferida no PROPED/UERJ, as sociedades contemporâneas são sociedades memoriais e promovem uma dessacralização dos arquivos e museus. Esse movimento também seria visto como uma ancoragem para conformação de identidades, valorizando os arquivos pessoais como fonte de pesquisa.

 

Essa “escrita de si” caracterizada num ímpeto de arquivar a própria vida traz os indivíduos de volta à história e até mesmo a lógica de acumulação dos materiais já se torna elemento de pesquisa. Ângela (2004) contribui também elencando passos básicos para a organização desses arquivos como localizar o arquivo, seduzir o usuário, receber e tratar os arquivos e trabalhar nos mesmos, endossando que os arquivos pessoais dão uma dimensão humana à história, sem deixar de alertar para o “feitiço dos arquivos”, destacando, portanto, o compromisso ético do/a historiador/a ao utilizá-los.

 

No caso da referida pesquisa, na exploração dos arquivos pessoais das professoras, algumas aposentadas, já realizando um movimento de olhar para trás e reencontrar a própria história, será possível não somente encontrar um viés mais humano, como também mais feminino para a produção da escrita da história.

 

Consideramos também as contribuições das professoras Maria Teresa Santos Cunha e Maria Helena Câmara Bastos, em que destacamos o conceito de egodocumentos, documentos arquivados pelo próprio usuário e que contribuem para o registro da própria história. E a reflexão sobre o trabalho com acervos pessoais, contribuindo para a reaproximação entre memória e história. Ainda, a respeito da importância de produzir narrativas problematizadoras, em se tratando de escritos biográficos, e de utilizar-se de uma profusão de fontes.

 

No trabalho com histórias de vida, a exemplo do projeto que será desenvolvido, além dos arquivos públicos e privados, outra fonte fundamental é a da oralidade. A história oral se torna uma opção inevitável, considerando que grande parte do conteúdo a ser abordado é proveniente de memórias ainda não sistematizadas.

 

Através das fontes orais, exploramos entrevistas com as professoras investigadas e outros elementos de seu círculo pessoal e profissional, destacando-as como caminho metodológico central e estratégico. Considerando Aceves Lozano (1994)

 

“Nesse estilo de trabalho, a tarefa de produzir conhecimentos históricos se torna válida, especialmente rica e atual, já que implica: reflexão teórica, trabalho empírico e de campo; maior ligação e vínculo pessoal com os sujeitos estudados; um processo de constituição de uma fonte e um processo de produção de conhecimentos científicos...”.5

 

Com o intuito de garantir a diversidade de fontes, contamos também com fontes documentais que se caracterizam por arquivos de escolas, de sindicatos, de partidos políticos, da Companhia Siderúrgica Nacional, da imprensa escrita, arquivos pessoais e por pesquisa bibliográfica.

 

No campo da história oral, que vem sendo valorizado academicamente nas últimas décadas, encontra-se um universo extremamente rico para exploração das histórias de vida, onde ficam guardadas memórias, detalhes, fios de sentido que permitem a tessitura de teias que não existiriam se as fontes se restringissem aos documentos escritos e/ou oficiais.

 

A respeito, Bourdieu (2005) nos alerta para a “ilusão biográfica”, discorrendo sobre a Teoria do Relato e o postulado do sentido da existência, onde o relato da história de vida apresentaria, necessariamente, uma ordem cronológica e lógica segundo a compreensão do biografado, implicando no risco da criação de relações inteligíveis motivadas pelo desejo de dar sentido à existência. Um sentido, pois, artificial, impulsionado pelo entendimento da vida como um todo coerente.

 

Nesse processo de análise da produção do discurso sobre si, o autor também destaca o sistema dos mercados protegidos e das leis da biografia repercutindo sobre as pesquisas nessa área. E ressalta a importância do desvio para a construção prévia dos contextos, contribuindo para a formação de uma concepção do investigador que promova uma noção de trajetória em que os acontecimentos biográficos sejam analisados criticamente, considerando suas colocações, deslocamentos, relações entre sentido e valor, os momentos e espaços diversos de atuação do agente e suas relações com outros agentes.

 

Giovanni Levi (2005) também analisa a questão da biografia na historiografia contemporânea, dialogando com Bourdieu, quando do surgimento de novos paradigmas do século XX, nos quais as crises de concepção na física, a psicanálise e novas vertentes na literatura provocam a assunção de uma nova dimensão de individualidade. Elementos tais, que resultariam na inauguração de novas perspectivas para o campo da biografia, trazendo questões importantes, como a autodefinição de um indivíduo mediante um grupo ou uma classe.

 

Levi (2005) traz ainda a formulação de uma tipologia das abordagens biográficas, na qual relaciona, dentre outros tipos, a prosopografia, uma forma de registro de elementos biográficos de alcance geral com caráter mais coletivo.

A prosopografia, também abordada como biografia coletiva, se apresenta como um possível procedimento metodológico para compor o projeto de pesquisa sobre as histórias de vida das mulheres da educação de Volta Redonda.

 

Entretanto, nosso projeto sobre as memórias de educadoras militantes se propõe a problematizar a análise da trajetória de vida de um grupo de mulheres com atuação específica, com maior enfoque para uma dessas mulheres em especial, que perdura ativa ainda na atualidade, no sentido de compreender suas práticas de resistência e enfrentamento nas dimensões das opressões de gênero vivenciadas em todos os âmbitos e da censura e autoritarismo impingidos pela ditadura civil-militar, bem como as atuações das agentes nos processos de democratização das instituições escolares, instâncias sindicais e outros espaços em que apresentaram militância freqüente.

 

“A memória das mulheres é verbo”, afirma Perrot (2005), recuperando a história de uma provável recusa da fala feminina. As mulheres das quais a pesquisa se propõe a tratar fazem parte de um período histórico onde o exercício da oralidade já representa um direito conquistado nas normatizações gerais, porém, não sem luta permanente para garanti-lo. “É por isso que os desenvolvimentos recentes da história chamada de “oral” são de certa maneira uma revanche das mulheres”6 e entende-se, dessa forma, se tratar de uma fonte de pesquisa fundamental nesse caso.

 

Por fim, buscar os elementos históricos, ainda à sombra do predomínio de registros de falas e trajetórias das figuras masculinas, e garantir espaço para as vozes negligenciadas dessas mulheres educadoras de Volta Redonda, participantes ativas da história da cidade, é tornar explícita sua relevância e contribuir para a formação emancipatória das novas gerações.

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[1]  Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação (ProPEd) da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU/UERJ) e membro do Laboratório de Educação e República (LER) do Programa de Pós-graduação em Educação (ProPEd) da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU/UERJ).

[2] Professora Associada da Faculdade de Educação e do programa de Pós-Graduação da Universidade do estado do Rio de Janeiro (ProPEd/UERJ). Coordenadora do Laboratório de Educação e República (LER) do Programa de Pós-graduação em Educação (ProPEd) da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU/UERJ). 

[3] BEDÊ, Edgard Domingos Aparecida Tonolli Bedê. Formação da classe operária em Volta Redonda. Volta Redonda, 2010, p.56.

[4] BEDÊ, Edgard Domingos Aparecida Tonolli Bedê. Formação da classe operária em Volta Redonda. Volta Redonda, 2010,p.55

[5]Jorge Eduardo Aceves Lozano. Pratica e estilo de pesquisa na história oral contemporânea. In FERREIRA, Marieta de Moraes Ferreira e Amado, Janaína Amado, organizadoras. Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1998, p.24. 

[6] Michelle Perrot. Traços. / Práticas da memória feminina. In: PERROT, Michelle.

 As mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC, 2005. p.40


 

 

 

 


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